O anúncio sobre as tarifas aplicadas pelos Estados Unidos deve ser feito às 19h desta quarta-feira (2)
O anúncio sobre as tarifas aplicadas pelos Estados Unidos deve ser feito às 19h desta quarta-feira (2). Neste dia, chamado pelo país de “Dia da Libertação”, o Brasil teme que novas taxas possam ser impostas além das já aplicadas ao aço e ao alumínio. Confira mais em TVT News.
O Brasil exporta para os Estados Unidos produtos semiacabados de aço, como blocos e placas, além de petróleo bruto, produtos semiacabados de ferro e aeronaves. O país está entre os três maiores fornecedores de aço para os EUA, atrás apenas de México e Canadá, com US$ 2,66 bilhões exportados no ano passado.
O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, também anunciou que deve sobretaxar em 25% automóveis e componentes, o que pode afetar o setor de autopeças e impactar a própria produção norte-americana.

Além das tarifas já anunciadas sobre aço e alumínio, o governo brasileiro teme ser atingido por um imposto linear sobre praticamente toda a pauta exportadora para os EUA.
Para o analista econômico e líder do mercado de capitais da Crowe Macro Brasil, Ricardo Rodil, até mesmo os Estados Unidos não devem escapar dos impactos inflacionários: “Inicialmente, a consequência direta é uma pressão inflacionária. Isso levaria o FED (Federal Reserve) a aumentar a taxa de juros nos EUA, o que não é bom para nós. Qualquer aumento na taxa do dólar atrairia investimentos para os Estados Unidos, reduzindo a oferta de dólares em países em desenvolvimento e encarecendo a moeda para nós”.
Com o aumento do dólar, os EUA poderiam importar mais, mas os custos dessa política devem ser repassados ao consumidor final: “O dólar mais forte permitiria que os EUA importassem mais, o que geraria mais taxas, mas o consumidor não estaria disposto a pagar por tudo isso”, completou o analista.
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A secretária de Imprensa da Casa Branca, Karoline Leavitt, afirmou na última terça-feira (1º) que as tarifas a serem anunciadas nesta quarta-feira (2) pelo presidente Donald Trump terão efeito imediato e devem atingir diversos países, incluindo o Brasil.
Na Esplanada dos Ministérios, o clima é de pessimismo. A gestão de Donald Trump já demonstrou considerar o Brasil um país problemático devido à discrepância tarifária e às barreiras não tarifárias. Esse cenário preocupa investidores, como destaca Ricardo Rodil: “Os setores estão apreensivos. Se houvesse um presidente nos EUA com um discurso mais coerente e uma linha de raciocínio inteligível, a incerteza poderia ser menor. Essa situação também coincide com a queda do agronegócio, setor fundamental da nossa pauta exportadora”.
O Brasil adota políticas tarifárias rígidas para proteger setores estratégicos, como indústria e tecnologia, especialmente o de autopeças, que será diretamente afetado. Além disso, como membro do Mercosul, o país segue a Tarifa Externa Comum (TEC), que pode ser elevada para produtos de fora do bloco.
Já os EUA aplicam tarifas mais baixas, mas impõem barreiras não tarifárias:
- Aço e alumínio → Sobretaxas impostas por questões de segurança nacional.
- Etanol e açúcar → Cotas que limitam exportações brasileiras com tarifas reduzidas.
- Produtos agrícolas → Alguns enfrentam barreiras sanitárias e fitossanitárias.
Além disso, os EUA retiraram o Brasil, em 2020, do Sistema Geral de Preferências (SGP), que facilitava o acesso de produtos de países em desenvolvimento ao mercado norte-americano. Com essa exclusão, diversos produtos brasileiros passaram a ser tarifados.

As barreiras norte-americanas também incluem exigências rigorosas de certificação para alimentos e restrições ambientais, enquanto o Brasil impõe regras alfandegárias burocráticas que dificultam a entrada de produtos norte-americanos.
Essa postura ficou clara no relatório divulgado na última segunda-feira (31) pelo Escritório do Representante de Comércio dos EUA (USTR), que apontou que o Brasil impõe tarifas de importação relativamente altas em diversos setores. Uma reunião entre o representante do USTR e o ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, foi cancelada, sem previsão de nova data.
Segundo jornais norte-americanos, Trump tem dois cenários possíveis: a aplicação de uma tarifa universal fixa de 20% para todos os países ou a definição de taxas diferenciadas conforme as barreiras impostas ppr cada país aos produtos norte-americanos.
Para Rodil, no entanto, o “tarifaço” de Trump contraria a lógica da globalização, que descentralizou a produção mundial. Assim como o Brasil, os Estados Unidos já não possuem uma indústria de transformação tão forte como em décadas passadas: “Não sei se Trump ignora esse fato, mas hoje temos cadeias produtivas globais. Ele não conseguirá transferir toda a produção de um carro para os EUA em apenas quatro anos. Isso encareceria ainda mais os produtos norte-americanos, principalmente com as deportações”, afirmou o analista.
Para se proteger, o Senado aprovou nesta terça-feira (1º), em regime de urgência, a Lei da Reciprocidade Econômica, que prevê medidas de retaliação contra países que aplicarem tarifas sobre produtos e matérias-primas acima dos limites estabelecidos pelas regras de comércio internacional.
A proposta foi aprovada por 16 votos a favor e nenhum contra na Comissão de Assuntos Econômicos (CAE) e segue agora para análise na Câmara dos Deputados. No entanto, para Rodil, o Brasil poderia adotar medidas mais estratégicas: “Não sei se essa é a melhor resposta. Estamos em desvantagem qualitativa, importando produtos com maior valor agregado e exportando com menor. O ideal seria incentivar a compra de maquinário para aumentar a produtividade e a oferta de bens e serviços no Brasil. Isso traria um efeito positivo claro e aumentaria nossa competitividade internacional”.