Cory Booker, senador pelo partido democrata, defendeu a manutenção de políticas sociais que estão sendo desmontadas pelo governo
O senador democrata Cory Booker entrou para a história dos Estados Unidos nesta terça-feira (1º), ao discursar por 25 horas ininterruptas no Senado em protesto contra as políticas do governo Donald Trump. O feito não apenas quebrou um recorde histórico, mas também reescreveu o contexto simbólico associado ao discurso mais longo já realizado no Congresso norte-americano. Confira mais em TVT News.
Até então, o recorde pertencia ao senador republicano Strom Thurmond, da Carolina do Sul, que, em agosto de 1957, falou por 24 horas e 18 minutos em uma tentativa de obstruir a aprovação da Lei dos Direitos Civis. Thurmond, conhecido por suas posições segregacionistas, vinculou seu discurso a uma agenda racista. Já Booker, primeiro senador afro-americano por Nova Jersey, realizou uma verdadeira maratona para destacar questões sociais urgentes e criticar duramente as decisões de Trump.
Entre segunda-feira (31) e esta terça-feira, o senador usou o púlpito do senado para alertar sobre os impactos das medidas adotadas por Trump, como a intenção de anexar a Groenlândia e o Canadá aos EUA, além de cortes em programas sociais e a redução de impostos para os mais ricos. Para Booker, essas ações representam uma “iminente crise constitucional”.

“Em apenas 71 dias, o presidente dos EUA causou tantos danos à segurança dos americanos, à estabilidade financeira, aos alicerces centrais da nossa democracia e até mesmo às nossas aspirações como povo”, afirmou durante o discurso.
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Além de criticar Trump, Booker também apontou o empresário Elon Musk como figura central nas decisões da administração republicana. Ele questionou o poder exercido por Musk, que, sem ocupar cargo público, influencia diretamente políticas de grande relevância nacional.
Ao finalizar sua fala, o senador fez um emocionante apelo aos colegas de partido, pedindo maior engajamento na defesa dos interesses do eleitorado. “Todos devemos olhar no espelho e dizer: ‘Faremos melhor.’”, declarou.
Como funciona a obstrução nos EUA?
Para manter seu recorde, Booker permaneceu de pé durante todo o período, sem interrupções para comer, beber ou ir ao banheiro. A prática é conhecida como filibuster (obstrução parlamentar), mas funciona de forma diferente daquela utilizada no Brasil, onde parlamentares recorrem a mecanismos variados para protelar votações.
No Congresso norte-americano, a obstrução ocorre geralmente por meio de discursos prolongados, com congressistas muitas vezes caminhando lentamente até o púlpito para ganhar tempo. Essa tática ficou imortalizada no cinema com o clássico dirigido por Frank Capra, “A Mulher Faz o Homem” (Mr. Smith Goes to Washington), de 1939. No filme, o personagem Jefferson Smith, interpretado por James Stewart, faz uso da palavra por horas para protestar contra a corrupção política.

Quem é Cory Booker?
Cory Booker nasceu em Washington, D.C., mas mudou-se ainda criança para Nova Jersey. Como jovem negro crescendo em um bairro majoritariamente branco, enfrentou discriminação desde cedo. Sua trajetória acadêmica é invejável: formou-se em ciência política pela Universidade de Stanford, concluiu uma pós-graduação em sociologia como bolsista na Universidade de Oxford e recebeu um doutorado em direito pela prestigiada Universidade de Yale.
Carreira Política
Booker iniciou sua carreira política em 1998, quando foi eleito para o Conselho Municipal de Newark, em Nova Jersey, cargo que ocupou até 2002. Em 2006, tornou-se prefeito da cidade, implementando políticas voltadas à redução da criminalidade e ao desenvolvimento urbano.

Em 2013, venceu uma eleição especial para o Senado dos Estados Unidos. Com isso, tornou-se o primeiro afro-americano a representar Nova Jersey na casa legislativa. Reelegeu-se em 2014 e 2020, consolidando sua posição como uma das vozes progressistas mais influentes do Partido Democrata.
Em 2019, Booker anunciou sua candidatura à presidência dos EUA pelo Partido Democrata. Apesar de participar ativamente das prévias, retirou-se da disputa em janeiro de 2020, citando dificuldades em angariar apoio dentro do partido e baixa visibilidade nas pesquisas.
Conhecido por suas posições progressistas, Booker defende abertamente os direitos das mulheres, ações afirmativas, casamento entre pessoas do mesmo sexo e a implementação de um sistema de saúde público e universal. Além disso, tem se destacado na luta por reformas no sistema de justiça criminal e no combate à desigualdade racial e econômica nos Estados Unidos.